terça-feira, 14 de julho de 2009

o jogo

havia já separado times:
aqueles que foram e os que permaneceram.

Dos que ficaram, alguns tiveram filhos, casaram-se.
Outros conseguiram trabalho, organizaram suas vidas..
Alguns chegaram a ir até a fronteira, mas temerosos, não ousaram.
Dos muitos, apenas dois morreram jovens.
Os demais tiveram longa mórbida estática conformidade com aquela realidade.
Uns empreenderam, faliram, reconstruíram, faliram.
Apenas um logrou êxito empreendedor.
Os demais produziram para outros, deixaram-se levar.
"Não há como ter negócios aqui.
Melhor é trabalhar todos os dias, não se deixar abater, perceber essa realidade e com ela conviver bem.
Somos daqui, filhos da terra, não iremos buscar saídas em outros lugares.
Se aqui está ruim, imagine lá fora!"
As certezas sólidas dos que ficaram geraram filhos.
Alguns destes estudaram, concluíram a escola normal.
Apenas dois estudaram em Universidades, um se formou engenheiro, o outro administrador.
Os demais, após a escola, tiveram filhos, casaram-se.
Outros conseguiram trabalho, organizaram suas vidas.
Alguns foram até a fronteira escutar as histórias dos projenitores.
Uns tiveram o ímpeto empreendedor dos pais. Faliram, cresceram, quebraram, venceram objetivos iniciais.
Os demais produziram para outros, deixaram-se levar.

E assim foi com os filhos, e os filhos dos filhos.
Carregados dentro da cerca, asfixiados pela bolha, amarrados pelo temor.


Dos que foram, há notícias de muitos, talvez um pouco mais da metade.
Destes, alguns viveram enquanto jovens as graças da descoberta.
Outros trabalharam como escravos e enfrentaram inimigos nunca antes conhecidos.
Alguns passaram por situações dificílimas, fome, frio, desabrigo, medo.
Vividas as adversidades, criaram calos, aprenderam a esquivar das pauladas da vida.
Muitos deles morreram jovens, não se pôde contar.
Mas a maioria deles criou asas.
Alguns realmente não souberam voar. Bateram, bateram asas... Mas a tentação do horizonte cada vez mais longe os levou ao fracasso.
Alguns empreenderam, faliram, reconstruíram, quebraram, venceram.
Alguns estudaram mais e mais, não somente as letras acadêmicas, mas as letras mundanas, a graça do novo.
Outros conceberam criações fantásticas, a mente ampla, a produção da arte e do espírito.
outros se renderam à boemia, as longas noites dos mundos de fora.
"ser livre está além de ter, é um querer incomparável. Ser livre é o atestado próprio da vitória.
Não há porque insistir no que já nos é conhecido: o conhecimento é expansão, e para tal, devemos nos permitir.
Permitir a falha, o erro, o temor, é superar, crescer, evoluir."

E para fora da cerca era bem melhor. Por mais que houvesse poucas notícias dos que saíram, havia a certeza que o desejo era um ímpeto sólido.

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