sexta-feira, 26 de junho de 2009

beleza roubada

roubaram a beleza dela
ela se foi feia e gasta.

ah, é uma denúncia
ela teve a beleza roubada
e preceisa resgatar detalhes

vá à casa dos progenitores
reviste cada canto velho
ouse não calar, contrariando costumes
interrompa a barreira do abismo
e saia

ah, roubaram a beleza dela!
ela saiu para procurar
pode ser que leve tempo
pode ser que ela não vá voltar
muito obrigada, irmãos e irmãs
a erstrada é reta e rudimentar
não permite que solavancos ocorram
nem que se vire para relembrar

queira Deus que esteja na esquina
perto do que chamaram lar
mas a certeza dela é veemente
sua beleza fora roubada
e ela já não deve mais sonhar
cada tijolo acima deste muro
será ela a assentar
cada palmo de seu cabelo
deverá recuperar

vergonha é virtude de berço
de onde também vieram as manias
distantes do batismo ou terço
virtude passada às crias
não se humilhe sem esta beleza
construa sua garantia
eleve esse espírito mesquinho
e viva sua vida sozinha.

terça-feira, 23 de junho de 2009

meus escritos...

A cruiz de pedra

A mãe ficou sentada
Na berada do fogão
Varreno as cinza com ramo
Até cair no chão
Cos zóio triste, empapussado
Chorano a maldição
A Sá Chica que me disse
O pai num vorta mais não

E meus zóio foro incheno
Que nem quando o sereno
Moía toda a prantação
Nessa miséria sem tamanho
O pai andou fartano
Por conta da bebeção

A mãe, sozinha, coitada
Com toda a fiarada
Aceitou a condição
Passou a mão na inchada
Acordou de madrugada
Levou eu, o Zé e o João

- Agora nóis é sozinho
Cada um faz seu caminho
Sem cuspi reclamação

A mãe foi que tava certa
Depois dessa descoberta
Eu mudei meu coração

Meu Jesus cristim amado
Quem que fez tanto pecado
Pra sofrê dessa porção?
Vê contá que gente rica
Faiz que faiz e num suplica
Nem ajuda cum tostão

Mas a vida é professora
É nos cabo das vassora
Que se aprende essa lição

Os revertério que a vida dá
É pra nóis sabê cuidá
Das mazela do sertão

A cruiz que nóis carrega
Num é quarqué um que pega
É só pra nóis essa missão.

sexta-feira, 19 de junho de 2009

carta ao antônio pelos dias especiais

soneto

por que me descobriste no abandono
com que tortura me arrancaste um beijo
por que me incendiaste de desejo
quando eu estava bem, morta de sono

com que mentira abriste meu segredo
de que romance antigo me roubaste
com que raio de luz me iluminaste
quando eu estava bem, morta de medo

por que não me deixaste adormecida
e me indicaste o mar, com que navio
e me deixaste só, com que saída

por que desceste ao meu porão sombrio
com que direito me ensinaste a vida
quando eu estava bem, morta de frio...



uma homenagem de chico buarque ao meu amor.

coletânea literária - os melhores

"Vou colecionar mais um soneto
Outro retrato em branco e preto
A maltratar meu coração"


"Quem me vê sempre parado, distante
Garante que eu não sei sambar
Tou me guardando pra quando o carnaval chegar"




"Quero inventar o meu próprio pecado
Quero morrer do meu próprio veneno"



mestre supremo buarque de holanda...
sussurro sem som
onde a gente se lembra
do que nunca soube


[...]

Eu quase que nada não sei. Mas desconfio de muita coisa.




brilhante e eterno guimarães rosa
PERGUNTO-TE ONDE SE ACHA A MINHA VIDA

Pergunto-te onde se acha a minha vida.
Em que dia fui eu. Que hora existiu formada
de uma verdade minha bem possuída

Vão-se as minhas perguntas aos depósitos do nada.

E a quem é que pergunto?
Em quem penso, iludida
por esperanças hereditárias?
E de cada pergunta minha vai nascendo a sombra imensa
que envolve a posição dos olhos de quem pensa
.


não sei mais a diferença
de ti, de mim, da coisa perguntada,
do silêncio da coisa irrespondida.



poema da maravilhosa cecília...
tenho em mim todos os sonhos do mundo...




fernando pessoa

terça-feira, 9 de junho de 2009

carta àquele pássaro que voou

olá, boa noite, noite sempre, sempre sua
feliz dono da madrugada
rodeado de afetos e coisas boas

boa noite, noite insone, insone e curta
curta como a vida que levara
longe de todos os padrões dos homens

ah, como pôde assim
viver como relâmpago
fazer somente o que desejou
intensamente a cada instante
ah, que permissão teve
para negar astutamente
as mulheres de sua vida
ah, como foi que viveu
por tantos anos a fio
dedicado à boemia
e aos desalentos
ah, meu Deus,
que criatura foi essa
que inclinado ao mal
e torturado pelo bem
ah, que dor profunda
jamais saberá daqueles que o amaram
que todo perdão foi pouco
e que os julgamentos eram de amor
ah, altivo e belo
enganando e desenganando
florido do carisma dádiva

a mentira é a salvação
a verdade nada mais é

que a repetição das quase certezas...

"- o que as senhoras acham?
- exclamou Razumíkhin elevando a voz ainda mais.
- Acham que eu sou assim porque eles mentem?
Tolice! Eu gosto que eles mintam! A mentira é o único privilégio dos homens sobre os outros animais.
Mente que vais acabar atingindo a verdade!(...)
Nem uma só verdade poderias alcançar se antes não mentisse quatorze vezes e até cento e quatorze vezes
o que representa uma honra 'sui generis'(...)"


quem seria, então, verdadeiro?
não seriam todos eles hipócritas?

quntas lições foram vividas
quantos sofrimentos superados

oh, grande pássaro sem ninho
alcance sua madrugada mais profunda
e viva bom vivã como sois

sim, eu sei, seu nome não é johnny
talvez ninguém nunca tenha sabido esse nome
talvez..

mágica presença dos loucos
e àqueles que me dizem
prefiro pensar que Deus sou eu.

confusa constelação mundana
esperamos que cada estrela brilhante
traga você a todo momento

entre charutos, uísques e espelhos
entre crianças, jovens e homens
entre pobres, infelizes e milhonários

espero vê-lo num cassino
à margem do Rio Tamisa.

Seja lá como Deus permitirá
orgulho-me chamá-lo pai.