sexta-feira, 30 de outubro de 2009

cecília

OU ISTO OU AQUILO



Ou se tem chuva e não se tem sol,
ou se tem sol e não se tem chuva!


Ou se calça a luva e não se põe o anel,
ou se põe o anel e não se calça a luva!


Quem sobe nos ares não fica no chão,
quem fica no chão não sobe nos ares.


É uma grande pena que não se possa
estar ao mesmo tempo nos dois lugares
!



Ou guardo o dinheiro e não compro o doce,
ou compro o doce e gasto o dinheiro.


Ou isto ou aquilo: ou isto ou aquilo...
e vivo escolhendo o dia inteiro!


Não sei se brinco, não sei se estudo,
se saio correndo ou fico tranqüilo.


Mas não consegui entender ainda
qual é melhor: se é isto ou aquilo.

terça-feira, 27 de outubro de 2009

o labirinto

caminhos inacessíveis
pequenas vitórias quase que imperceptíveis
detalhes subentendidos do coração

e realização
é um fardo desajeitado de se levar pelos corredores sem fim conhecido...


outra vida que os caminhos jogam e se assemelham como labirinto
de repente aquela porta era um espelho curvo e bate-se a cara
novelos de intenções preocupações medos e ansiedades
fome de tudo que há, mas o que satisfaz é incosistente
jogado pela vida no dia da fraqueza

assumir o lado bom de tudo é muito poliana
encarar como fatos as decepções e angústias é querer ser forte demais
andar com coragem é desesperador e falho

e nenhum desses espelhos era a porta de saída.

aguardar é sabedoria
reconhecer a própria torpeza também
persistir no fato sabendo que "pelo áspero até as estrelas" é difícil
é ver a provação sem conseguir rezar.

é medo, sim.

temer que jamais terá menos sede para se chegar ao pote
ou menos afinco para os desejos da juventude
temer que os fracos são aqueles que nunca deixam passar nada
ou que a solidão é doença de quem nunca se contenta com nada.

mais portas e corredores
mais espelhos e truques baratos
é tenso sair quando se almeja tanto
é pobre pensar em quebrar todos os vidros

recorrer à última instância
quando ainda se analisa a petição inicial.


furar um buraco no tempo e no espaço
e vazar as questões robustas cujo termo final aguarda soluções para daqui muitos longos anos...

nenhuma porta deixa perceber o vento
a caminhada parece circular.


o que seria um ponto, uma reta?
de tudo ao infinito ou apenas paralela?
é impossível planejar a saída.
é medo, sim.

tomara que o minotauro não se irrite
quando de repente os joelhos se jogarem ao chão
e tudo que parecer a saída venha em nome de prece.

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Últimas Palavras...

Podem ser minhas últimas palavras...
assim de repente, sem nem perceber;
inconcientemente tudo foi posto a perder;
desatenção maldita que amaldiçoa meu ser;
amigos, oportunidades, amor...
quanta vida mais deixarei desaparecer?

O castigo da alma de alguem que não entende a vida;
que não encherga saida;
a não ser quando ela se faz presente;
junto à despedida;

O olhos no vazio de um sentimento triste;
sorrio pra minha enferma prole mas é como se alegria não existisse;
Das loucuras que seria capaz, mesmo que ninguem acredite;
dúvidas se seguirei, supreendam-se, porque de onde eu venho não se desiste.

Não espero clemêmncia nem compreensão pelo que estou compartilhando;
só quero que entenda, que se forem pra ser minhas últimas palavras, quero que sejam

EU TE AMO.

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

I am mine

The selfish, they're all standing in line
Faithing and hoping to buy themselves time
Me, I figure as each breath goes by
I only own my mind

The North is to South what the clock is to time
There's east and there's west and there's everywhere life
I know I was born and I know that I'll die
The in between is mine
I am mine


And the feelings, it gets left behind
All the innocence lost at one time
Significant, between the lines
There's no need to hide...
We're safe tonight

The ocean is full 'cause everyone's crying
The full moon is looking for friends at high tide
The sorrow grows bigger when the sorrow's denied
I only know my mind
I am mine


And the feelings that get left behind
All the innocents, broken with lies
Significant, behind the eyes
We may need to hide

And the meanings it gets left behind
All the innocents lost at one time
Significant, between the lines
We may need to hide.

dores

rezo pelo bem
rezo pela força
rezo para que o tempo lave tudo.

às traças

ferida
ignorada
jogada às traças.

cartão vermelho na primeira falta do primeiro tempo
mal sabia o juiz que o banco dói os ossos lombares como surra...


no limbo
para as traças.

não é fácil recuperar uma rosa no bueiro:
a enchorrada passa
e ela se vai
a caminho do rio
que deságua no mar.

e o mar é infinito
não é fácil encontrar uma rosa
perdida no oceano.

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

ASAS




Tenho asas nos meus pés pregados no chão
Disparo no infinito o sonho e o percorro
Alimento o ímpeto de alcançar o cume da montanha mais alta
Preciso superar todos os limites ao sonho

Por isso bato asas.

Voar é um desejo mais que estapafúrdio
É condição para dormir e acordar diariamente
É saber que o novo é indescoberto
– ainda,
todavia.
Voar irriga as paredes cavas de minhas veias principais
Veias aéreas
Veias onde corre o sangue do desejo
Quente e lascivo
Uma necessidade perene de crescer e melhorar.

Por isso bato asas.

Jamais conseguirei me entregar ao cômodo
Nada é cômodo quando se tem asas nos pés
Mas os mantenho pregados ao chão para que todo sonho não se perca em vão
Em sonho sobre sonho sobre sonho que somente sonha demais
E voa pouco.

A todos os poucos queridos de meu mais profundo afeto
Que me vejam voar
Que me desejem voar
Porque voar é o que me torna viva
Ter asas é o principal fator para que eu seja tão espirituosa
Alegre
Presente
E livre.

Por isso bato asas.

Que eu voe
Que todos os afetos voem!

Por isso tenho asas:
Tenho asas para viver
E viver confunde-se com voar.

terça-feira, 13 de outubro de 2009

decisão

Estou decidido.

vou aprender mais
vou entender mais
vou tentar chegar ao nível dos seus
e vou tentar superá-los...

não que eu tenha...
mas porque eu quero.

quero que se orgulhe de mim
que me admire
que me mostre, como o troféu que você tanto buscou.
para que você não procure mais
e tenha a certeza
que já encontrou o seu amor.

terça-feira, 6 de outubro de 2009

o aniversário do pássaro

Deslizes

Não sei porquê
Insisto tanto em te querer
Se você sempre faz de mim
O que bem quer
Se ao teu lado
Sei tão pouco de você
É pelos outros que eu sei
Quem você é...

Eu sei de tudo
Com quem andas, aonde vais
Mas eu disfarço o meu ciúme
Mesmo assim
Pois aprendi
Que o meu silêncio vale mais
E desse jeito eu vou trazer
Você pra mim...

E como prêmio
Eu recebo o teu abraço
Subornando o meu desejo
Tão antigo
E fecho os olhos
Para todos os teus passos
Me enganando
Só assim somos amigos...

Por quantas vezes
Me dá raiva de querer
Em concordar com tudo
Que você me faz
Já fiz de tudo
Prá tentar te esquecer
Falta coragem prá dizer
Que nunca mais...

Nós somos cúmplices
Nós dois somos culpados
No mesmo instante
Em que teu corpo toca o meu
Já não existe
Nem o certo, nem errado
Só o amor que por encanto
Aconteceu...

E é só assim
Que eu perdôo
Os teus deslizes
E é assim o nosso
Jeito de viver
E em outros braços
Tu resolves tuas crises
Em outras bocas
Não consigo te esquecer
Te esquecer...

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

simbolismo

Antífona

Ó Formas alvas, brancas, Formas claras
De luares, de neves, de neblinas!
Ó Formas vagas, fluidas, cristalinas...
Incensos dos turíbulos das aras

Formas do Amor, constelarmante puras,
De Virgens e de Santas vaporosas...
Brilhos errantes, mádidas frescuras
E dolências de lírios e de rosas ...

Indefiníveis músicas supremas,
Harmonias da Cor e do Perfume...
Horas do Ocaso, trêmulas, extremas,
Réquiem do Sol que a Dor da Luz resume...

Visões, salmos e cânticos serenos,
Surdinas de órgãos flébeis, soluçantes...
Dormências de volúpicos venenos
Sutis e suaves, mórbidos, radiantes...

Infinitos espíritos dispersos,
Inefáveis, edênicos, aéreos,
Fecundai o Mistério destes versos
Com a chama ideal de todos os mistérios.

Do Sonho as mais azuis diafaneidades
Que fuljam, que na Estrofe se levantem
E as emoções, todas as castidades
Da alma do Verso, pelos versos cantem.

Que o pólen de ouro dos mais finos astros
Fecunde e inflame a rima clara e ardente...
Que brilhe a correção dos alabastros
Sonoramente, luminosamente.

Forças originais, essência, graça
De carnes de mulher, delicadezas...
Todo esse eflúvio que por ondas passa
Do Éter nas róseas e áureas correntezas...

Cristais diluídos de clarões alacres,
Desejos, vibrações, ânsias, alentos
Fulvas vitórias, triunfamentos acres,
Os mais estranhos estremecimentos...

Flores negras do tédio e flores vagas
De amores vãos, tantálicos, doentios...
Fundas vermelhidões de velhas chagas
Em sangue, abertas, escorrendo em rios...

Tudo! vivo e nervoso e quente e forte,
Nos turbilhões quiméricos do Sonho,
Passe, cantando, ante o perfil medonho
E o tropel cabalístico da Morte...

i-juca pirama

IV

Meu canto de morte,
Guerreiros, ouvi:
Sou filho das selvas,
Nas selvas cresci;
Guerreiros, descendo
Da tribo tupi.
Da tribo pujante,
Que agora anda errante
Por fado inconstante,
Guerreiros, nasci;
Sou bravo, sou forte,
Sou filho do Norte;
Meu canto de morte,
Guerreiros, ouvi.

Já vi cruas brigas,
De tribos imigas,
E as duras fadigas
Da guerra provei;
Nas ondas mendaces
Senti pelas faces
Os silvos fugaces
Dos ventos que amei.

Andei longes terras
Lidei cruas guerras,
Vaguei pelas serras
Dos vis Aimoréis;
Vi lutas de bravos,
Vi fortes — escravos!
De estranhos ignavos
Calcados aos pés.

E os campos talados,
E os arcos quebrados,
E os piagas coitados
Já sem maracás;
E os meigos cantores,
Servindo a senhores,
Que vinham traidores,
Com mostras de paz.

Aos golpes do imigo,
Meu último amigo,
Sem lar, sem abrigo
Caiu junto a mi!
Com plácido rosto,
Sereno e composto,
O acerbo desgosto
Comigo sofri.

Meu pai a meu lado
Já cego e quebrado,
De penas ralado,
Firmava-se em mi:
Nós ambos, mesquinhos,
Por ínvios caminhos,
Cobertos d’espinhos
Chegamos aqui!

O velho no entanto
Sofrendo já tanto
De fome e quebranto,
Só qu’ria morrer!
Não mais me contenho,
Nas matas me embrenho,
Das frechas que tenho
Me quero valer.

Então, forasteiro,
Caí prisioneiro
De um troço guerreiro
Com que me encontrei:
O cru dessossêgo
Do pai fraco e cego,
Enquanto não chego
Qual seja, — dizei!

Eu era o seu guia
Na noite sombria,
A só alegria
Que Deus lhe deixou:
Em mim se apoiava,
Em mim se firmava,
Em mim descansava,
Que filho lhe sou.

Ao velho coitado
De penas ralado,
Já cego e quebrado,
Que resta? — Morrer.
Enquanto descreve
O giro tão breve
Da vida que teve,
Deixai-me viver!

Não vil, não ignavo,
Mas forte, mas bravo,
Serei vosso escravo:
Aqui virei ter.
Guerreiros, não coro
Do pranto que choro:
Se a vida deploro,
Também sei morrer.