segunda-feira, 20 de julho de 2009

A Rosa e o Príncipe



A Rosa é muito bem cuidada em sua cúpula de cristal.

a cor das manhãs é branca e beje
o cheiro é aconchegante
o calor é essencial.

o beijo antes de dormir é certeza
'boa noite, princesa'
os pés, mais que quentes: são juntos, lisos, idênticos

[a sinceridade é um dom
saber reconhecê-la é uma dádiva]

e perceber nos segundos maravilhosos e efêmeros dos dias
em cada sorriso rápido
em cada conversa despretensiosa
o amor que se sente no toque dos dedos, nas mãos macias
no veludo das palavras faladas ao ouvido

e o olhar..

foi esse olhar que mudara tudo
olho no olho
e a rosa estava rendida
nos momentos de mãos fortes e unhas afiadas
disse único
verdadeiro, fiel
os olhos não mentem
- jamais fora tomada assim -
jamais houvera tão sincero

descrevendo cometimentos de vontades justas
completando uma necessidade antiga e procurada
inovando a metade que faltava
incorporando o que chamava 'amor'


e desde então
manhãs brancas e bejes
e beijos apaixonados de boa noite
risadas no cinema porque o lanche era grande demais
ou muitas idas e vindas nas estradas pelo chão goiano

descobriu nova rosa
bela, singela, delicada
púrpura, amante, fortificada
uma princesa,

uma pequena rosa para o pequeno príncipe.
assim, disse o príncipe à raposa no deserto:
"tu te tornas eternamente responsável por tudo que cativas"

e fiel ao príncipe, a rosa:
pacta sunt servanda.

terça-feira, 14 de julho de 2009

o jogo

havia já separado times:
aqueles que foram e os que permaneceram.

Dos que ficaram, alguns tiveram filhos, casaram-se.
Outros conseguiram trabalho, organizaram suas vidas..
Alguns chegaram a ir até a fronteira, mas temerosos, não ousaram.
Dos muitos, apenas dois morreram jovens.
Os demais tiveram longa mórbida estática conformidade com aquela realidade.
Uns empreenderam, faliram, reconstruíram, faliram.
Apenas um logrou êxito empreendedor.
Os demais produziram para outros, deixaram-se levar.
"Não há como ter negócios aqui.
Melhor é trabalhar todos os dias, não se deixar abater, perceber essa realidade e com ela conviver bem.
Somos daqui, filhos da terra, não iremos buscar saídas em outros lugares.
Se aqui está ruim, imagine lá fora!"
As certezas sólidas dos que ficaram geraram filhos.
Alguns destes estudaram, concluíram a escola normal.
Apenas dois estudaram em Universidades, um se formou engenheiro, o outro administrador.
Os demais, após a escola, tiveram filhos, casaram-se.
Outros conseguiram trabalho, organizaram suas vidas.
Alguns foram até a fronteira escutar as histórias dos projenitores.
Uns tiveram o ímpeto empreendedor dos pais. Faliram, cresceram, quebraram, venceram objetivos iniciais.
Os demais produziram para outros, deixaram-se levar.

E assim foi com os filhos, e os filhos dos filhos.
Carregados dentro da cerca, asfixiados pela bolha, amarrados pelo temor.


Dos que foram, há notícias de muitos, talvez um pouco mais da metade.
Destes, alguns viveram enquanto jovens as graças da descoberta.
Outros trabalharam como escravos e enfrentaram inimigos nunca antes conhecidos.
Alguns passaram por situações dificílimas, fome, frio, desabrigo, medo.
Vividas as adversidades, criaram calos, aprenderam a esquivar das pauladas da vida.
Muitos deles morreram jovens, não se pôde contar.
Mas a maioria deles criou asas.
Alguns realmente não souberam voar. Bateram, bateram asas... Mas a tentação do horizonte cada vez mais longe os levou ao fracasso.
Alguns empreenderam, faliram, reconstruíram, quebraram, venceram.
Alguns estudaram mais e mais, não somente as letras acadêmicas, mas as letras mundanas, a graça do novo.
Outros conceberam criações fantásticas, a mente ampla, a produção da arte e do espírito.
outros se renderam à boemia, as longas noites dos mundos de fora.
"ser livre está além de ter, é um querer incomparável. Ser livre é o atestado próprio da vitória.
Não há porque insistir no que já nos é conhecido: o conhecimento é expansão, e para tal, devemos nos permitir.
Permitir a falha, o erro, o temor, é superar, crescer, evoluir."

E para fora da cerca era bem melhor. Por mais que houvesse poucas notícias dos que saíram, havia a certeza que o desejo era um ímpeto sólido.

quinta-feira, 9 de julho de 2009

construção I

o que temer?
de onde correr?
pra onde fugir?
é necessário fugir?
como acreditar no mundo?
mas duvidar de quê, também?
fazer a lição?
já não estava feita?
ou a lição é que nunca estará feita?
construção?
diária?
constante?
ou depende do dia?
quem foi que disse?
onde estão todos?

whaaaat?